terça-feira, 29 de janeiro de 2019

BASO E A MEDITAÇÃO



Quando jovem, Baso praticava incessantemente a Meditação. Certa ocasião, seu Mestre Nangaku aproximou-se dele e perguntou-lhe:
- Por que praticas tanta Meditação?
- Para me tornar um Buddha.
O Mestre tomou de uma telha e começou a esfregá-la com um pedra. Intrigado, Baso perguntou:
- O que fazeis com essa telha?
- Pretendo transformá-la num espelho.
- Mas por mais que a esfregueis, ela jamais se transformará num espelho! Será sempre uma pedra.
- O mesmo posso dizer de ti. Por mais que pratiques Meditação, não te tornarás Buda.
- Então o que fazer?
- É como fazer um boi andar.
- Não entendo.
- Quando queres fazer um carro de bois andar, bates no boi ou no carro? Baso não soube o que responder e então o Mestre continuou: Buscar o Estado de Buda fazendo apenas Meditação é matar o Buda. Dessa maneira, não acharás o caminho certo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

ALÉM DO VAZIO




Certa vez um monge perguntou a Li-chan:
- Se todas as coisas se reduzem em última análise ao Vazio, este a quê se reduzirá?
Respondeu o mestre:
- Minha língua é curta demais para vos explicar.
- E por que vossa língua é tão curta? - perguntou o monge, intrigado.
- No interior e no exterior ela é da mesma vazia natureza. - Disse o mestre.




quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O DHARMA ETERNO




Um dia um discípulo perguntou ao seu professor:
- Mestre, todas as coisas existentes têm de extinguir-se, mas há uma Verdade Eterna?
- Sim, - disse o mestre.
E apontou para o jardim:
- Ela é como as flores do campo, que de tão belas parecem brocados de pura seda; como um riacho aparentemente imóvel, mas que de fato está fluindo suavemente para o oceano.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O QUE ESTAIS FAZENDO?





Shih-t'ou, certa vez, perguntou ao seu discípulo Yueh-shan:
- O que estais fazendo aqui?
- Nada estou fazendo, - respondeu o pupilo.
- Então estais gastando seu tempo! - Disse o mestre, testando-o.
- Não será também gastar o tempo, quando fazemos alguma coisa? - replicou o monge.
- Dizeis que nada estais fazendo, mas quem é este indivíduo que nada faz?
Respondeu Yueh-shan:
- Até o mais sábio não pode saber.





terça-feira, 8 de janeiro de 2019

VENTO




Certa tarde de outono, o mestre Ikyyu vagueava pelos campos, levando consigo um a flauta de bambu. Um eremita, ao vê-lo perguntou:
– Quem és tu?
– Sou um peregrino que segue para onde sopra o vento.
Tencionando pô-lo em apuros o eremita perguntou:
– E quando o vento não sopra?
– Então sopro eu – respondeu Ikyyu, começando a soprar na sua flauta.






quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

VACUIDADE



“O senso de abertura que pessoas vivenciam quando repousam suas mentes é conhecido nos termos do budismo como vacuidade, que é provavelmente uma das palavras mais mal-entendidas da filosofia budista. Já é difícil para os próprios budistas compreender o termo, mas os leitores ocidentais têm ainda mais dificuldade, já que muitos dos primeiros tradutores dos textos budistas em sânscrito e tibetano interpretavam a vacuidade como “o Vazio” ou o nada — erroneamente relacionando a vacuidade com a ideia de que nada existe. Nada estaria mais longe da verdade que o Buda buscava descrever.

Apesar de o Buda de fato ter ensinado que a natureza da mente — na verdade, a natureza de todos os fenômenos — é a vacuidade, ele não quis dizer que sua natureza fosse verdadeiramente vazia, como um vácuo. Ele disse que ela era vacuidade, termo que, em tibetano, é composto de duas palavras: tongpa-nyi. 
A palavra tonpa significa “vazio”, mas somente no sentido de algo além de nossa habilidade de perceber com nossos sentidos e nossa capacidade de conceitualizar. Talvez uma tradução melhor fosse “inconcebível” ou “que não pode ser nomeado”. A palavra nyi, por sua vez, não tem nenhum significado específico no vocabulário tibetano cotidiano. Mas, ao ser agregada a outra palavra, ela transmite um senso de “possibilidade” — um senso de que tudo pode surgir, tudo pode acontecer. 
Então, quando os budistas falam da vacuidade, eles não querem dizer “o nada”, mas sim um potencial ilimitado que algo tem de surgir, mudar ou desaparecer.
Talvez possamos usar, neste ponto, uma analogia com o que os físicos contemporâneos aprenderam sobre os estranhos e maravilhosos fenômenos que observam quando examinam o funcionamento interno de um átomo. 
De acordo com os físicos com os quais conversei, a base de todos os fenômenos subatômicos é muitas vezes chamada de estado de vácuo, o estado de menor energia no universo subatômico. 
No estado de vácuo, as partículas continuamente aparecem e desaparecem. Assim, apesar de aparentemente vazio, esse estado é, na verdade, muito ativo, repleto do potencial de produzir alguma coisa, qualquer coisa.
 Nesse sentido, o vácuo compartilha certas características com a “qualidade vazia da mente”. Assim como o vácuo é considerado “vazio”, mas, ao mesmo tempo, é a fonte da qual toda espécie de partículas surge, a mente é essencialmente “vazia” no sentido de que desafia a descrição absoluta. 
Entretanto, todos os pensamentos, emoções e sensações perpetuamente surgem a partir dessa base indefinível e incompletamente conhecida.
Como a natureza de sua mente é a vacuidade, você possui a capacidade potencialmente ilimitada de vivenciar uma variedade de pensamentos, emoções e sensações. Mesmo os mal-entendidos sobre a vacuidade não passam de fenômenos que surgem da vacuidade! 
Um simples exemplo pode ajudá-lo a obter algum entendimento da vacuidade em um nível experimental. 
Alguns anos atrás, um estudante me procurou pedindo ensinamentos sobre a vacuidade.
Dei-lhe as explicações básicas e ele pareceu bem satisfeito — eletrizado, até. “Isso é tão legal!”, ele exclamou ao final de nossa conversa. Minha própria experiência me ensinou que a vacuidade não é tão fácil de entender depois de uma lição, então sugeri que ele passasse os próximos dias meditando sobre o que aprendera. 
Alguns dias depois, o aluno chegou sem aviso no lado de fora do meu quarto com uma expressão de horror no rosto. Pálido, arqueado e tremendo, ele entrou no quarto vacilante, como alguém que estivesse testando o chão à sua frente para ver se não se tratava de areia movediça.
Quando finalmente parou na minha frente, ele disse: “Rinpoche, você me disse para meditar sobre a vacuidade. Mas, na noite anterior, me ocorreu que, se tudo é vacuidade, então o prédio inteiro é vacuidade, o piso é vacuidade e o chão embaixo do piso é vacuidade. Se esse é o caso, por que todos nós não afundamos e caímos nas profundezas de um buraco no chão?”
Eu esperei até que ele terminasse de falar. Então, perguntei: “Quem cairia?” Ele pensou a respeito por um momento e sua expressão mudou completamente.
“Ah”, ele exclamou, “entendi! Se o prédio é vacuidade e as pessoas são vacuidade, não há ninguém para cair e nada por onde cair”.
Ele soltou um longo suspiro, seu corpo relaxou e a cor voltou a seu rosto. Então, sugeri que ele voltasse a meditar sobre a vacuidade com essa nova compreensão.
Dois ou três dias depois, ele retornou a meu quarto sem aviso. Novamente pálido e trêmulo, ele entrou no quarto e parecia bem evidente que estava fazendo o máximo de esforço para prender a respiração, com medo de expirar o ar. 
Sentando-se na minha frente, ele disse: “Rinpoche, meditei sobre a vacuidade como você instruiu e entendi que, da mesma forma como o prédio e o chão são vacuidade, também sou vacuidade. Mas, à medida que me mantive seguindo essa linha de meditação, continuei me aprofundando cada vez mais, até que não fui mais capaz de ver ou sentir nada. Se eu não for nada além de vacuidade, tenho medo de morrer. Por isso corri para vê- lo hoje. Se eu for só vacuidade, então basicamente não sou nada, e não há nada para impedir que eu me dissolva no vazio.”
Quando vi que ele havia terminado, perguntei: “Quem se dissolveria?”
Esperei alguns momentos para que ele absorvesse a questão e pressionei mais um pouco: “Você está confundindo vacuidade com vazio. 
Quase todo mundo comete o mesmo erro no começo, tentando compreender a vacuidade como uma ideia ou um conceito. Eu mesmo cometi esse erro. Não há como entender a vacuidade conceitualmente. Você só pode reconhecê-la de fato por meio da experiência direta. 
Não estou pedindo que você acredite em mim. Tudo o que estou dizendo é que, nas próximas vezes em que você se sentar para meditar, deve perguntar a si mesmo: ‘Se a natureza de tudo é a vacuidade, quem ou o que pode dissolver-se? Quem ou o que nasce e quem ou o que pode morrer?’ Tente isso e você pode se surpreender com a resposta.” Com um suspiro, ele concordou em tentar de novo.
Vários dias mais tarde, ele voltou a meu quarto, sorrindo tranquilamente ao anunciar: “Acho que estou começando a entender a vacuidade.” Eu pedi que me explicasse. “Segui suas instruções e, depois de meditar sobre o assunto por um longo tempo, percebi que a vacuidade não é o nada, porque deve haver algo antes de haver o nada. A vacuidade é tudo — todas as possibilidades da existência e da não-existência imagináveis ocorrendo simultaneamente. Assim, se a sua verdadeira natureza for a vacuidade, então não se pode dizer que alguém realmente morre e não se pode dizer que alguém realmente nasce, porque a possibilidade de ser de certa forma e não ser de certa forma está presente dentro de nós em todos os momentos.”
“Muito bem”, eu disse. “Agora esqueça tudo o que você acabou de dizer, porque, se tentar lembrar-se exatamente disso, transformará tudo o que aprendeu em um conceito e precisaremos começar tudo de novo.”
 YONGEY MINGYUR RINPOCHE
Do livro “A Alegria de Viver – Descobrindo o Segredo da Felicidade”



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

SEM MOTIVO




Certo dia, três amigos passeavam e viram um homem no cume de um pequeno monte, sentado. 
Curiosos sobre o que estaria o homem fazendo, foram até ele, usando a trilha na encosta.
Chegando lá, o primeiro disse:
- Olá, está esperando um amigo?
- Não... - respondeu o outro.
O segundo homem replicou:
- Então está respirando o ar puro!
-Não... - disse o estranho.
O terceiro amigo disse:
- Já sei! Você estava passando e resolveu olhar este belo cenário.
- Não, na verdade... - repetiu o homem.
Os três amigos então exclamaram ao mesmo tempo, estupefatos:
- Mas então, o que faz aqui?! O homem disse com um suave sorriso:
- Apenas ESTOU aqui...




O VERÃO ZEN






Ao terminar o Verão, Yang-shan fez uma visita a Kuei-shan, que lhe perguntou:
- Não vos vi por aqui todo o Verão, o que fizestes?"
Yang-shan replicou:
- Estive cultivando um pedaço de terra e terminei de plantar umas sementes.
-Então, - comentou Kuei-shan, - não desperdiçastes o vosso Verão.
Por sua vez, Yang-shan disse:
- E vós, como passastes o Verão?
- Uma refeição por dia e um bom sono à noite, - argumentou o outro.
-Então, - foi a vez de Yang-shan comentar, - não desperdiçastes o vosso Verão.
Koan: Buscamos a Verdade longe, mas ela está sempre próxima de nós.



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